segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ARTIGO: Ética e cidadania, a saída para a crise


Ética e cidadania, a saída para a crise

Ruy Martins Altenfelder Silva*

 

Numa das raras comemorações do 187º aniversário do Grito do Ipiranga, a Fundação de Rotarianos de São Paulo programou uma palestra com o tema "A Independência do Brasil e o Brasil de hoje", que, honrado pelo convite, aceitei proferir. Embora por dever de ofício eu tenha sempre a atenção voltada para a conjuntura, as raízes e as perspectivas do País, confesso que saí da fase preparatória da palestra mergulhado num misto de esperança e desalento – a começar porque entristece ver a data maior do Sete de Setembro percebida só como mais um feriado, as exceções de praxe.

Tal descaso não é inédito e suscita perguntas: será que o brasileiro nada tem a comemorar depois de quase dois séculos de autonomia nacional? Nada do que se orgulhar em sua história? Nada a preservar de seu passado, para legar às futuras gerações? Somos assumidamente uma nação de memória curta. Não fosse assim, haveria motivos para rememorar momentos históricos como a corajosa ousadia dos antepassados que desbravaram o sertão, instalaram a sólida monarquia que assegurou a unidade territorial no século 19, na contramão das divisões que fragmentaram a América espanhola, e protagonizaram os 120 anos de vida republicana, reagindo pacífica ou belicamente contra governos autoritários. Mais recentemente, após duas décadas de ditadura, veio a redemocratização, que resistiu à sequência de fatos adversos que marcaram sua primeira década e meia, entre os quais a morte de um presidente civil antes da posse e o impeachment de outro.

A economia avançou mais rapidamente do que a política, mas não com menos sobressaltos, bastando lembrar que em trinta anos o País enfrentou catorze crises, contadas a partir do choque do petróleo de 1979, passando pelos quatro frustrantes planos de recuperação da moeda, as três grandes crises internacionais do final do século e, em 2001, a conjugação de duas crises, a argentina e o estouro da bolha da Nasdaq – que, aliás, poderia ter servido de alerta para o abalo provocado pelo descalabro dos subprimes, se bem entendida. Em seguida, vieram sete anos de bonança, encerrados com a crise financeira dos Estados Unidos, que contaminou a economia mundial, com efeitos já bem dissecados e conhecidos. Mas, como dizem, sempre se pode aprender com as crises. Ao lado da quebradeira geral, o tsunami financeiro trouxe para o centro do debate questões éticas que há muito haviam sido deixadas de lado e que, agora, começam a ser encaradas como o único caminho para restaurar a confiança nos sistemas bancários, nas políticas econômica e fiscal, no pulso dos governos para conter a ganância por ganhos financeiros exorbitantes, com a adoção de criteriosos marcos regulatórios e fiscalização eficiente.

O Brasil continua sob o impacto da crise, com os números oficiais apontando para a estabilização da queda, mas ainda distantes da retomada do crescimento. Esse retrocesso, evidentemente, contribui para agravar os sérios e crônicos problemas com que o País convive há séculos, sempre adiando as soluções eficazes e contentando-se com tímidos avanços, muitos dos quais resultantes mais da lei da inércia do que de decisões corajosas. Em pleno século 21, as estatísticas mostram que 40 milhões vivem (vivem?) abaixo da linha de pobreza; que 25% da população são analfabetos ou não conseguem compreender o que leem; que 83 crianças em mil morrem antes de completar um ano; que, na média, o brasileiro tem uma defasagem de quatro anos na escolaridade, perdendo em empregabilidade e renda.

 Pesquisas de opinião revelam o perigoso descrédito em que caíram as instituições públicas, consequência dos maus serviços prestados à população e dos escândalos que vêm à tona com regularidade assustadora e acabam quase invariavelmente em pizza, como a voz das ruas batizou essa perniciosa corrente de tolerância para com a corrupção, o empreguismo desenfreado, o compadrio, a irresponsabilidade com o dinheiro público, enfim, um conjunto de posturas que configura desrespeito à condição humana. No próximo ano, o eleitor irá mais uma vez às urnas, para escolher boa parte dos quadros políticos que comandarão o País nos próximos anos, no Executivo e no Legislativo. Será uma excelente oportunidade para renovar e sanear o cenário político, se os cidadãos responsáveis decidirem não apenas pautar seus votos por padrões éticos, mas também realizar um esforço adicional de cidadania, sensibilizando o maior número possível de eleitores para um fato: apenas a pressão de uma enorme massa de votos conscientes poderá trazer ao Brasil novos tempos, com mais justiça, mais dignidade e mais solidariedade. Somente então, quem sabe, o Sete de Setembro e outras datas emblemáticas serão retiradas do ostracismo e condignamente comemoradas por uma sociedade mais moderna, mais satisfeita e mais igualitária.

  

*Ruy Martins Altenfelder Silva é presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e presidente do Centro de Estudos Estratégicos e Avançados da Fiesp.